No artigo sobre a exposição de Tarsila, contei que Dora chorou ao descobrir que a Livraria Cultura do Conjunto Nacional havia fechado antes que ela pudesse conhecê-la.
Eu havia falado sobre as tardes que passei ali quando era mais jovem. Para Dora, bastou imaginar um lugar imenso, cheio de livros, para desejar entrar nele. Quando expliquei que já não existia, ela achou injusto.
Aquele artigo era sobre o que escolhi deixar para ela: a familiaridade com livros, museus, filmes e lugares diante dos quais eu mesma precisei aprender a não recuar.
Mas existe outra história dentro daquela livraria.
Uma história que começou muito antes de Dora e que talvez explique por que a reação dela me atravessou tanto.
Eu passava domingos inteiros na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.
Entrava no início da tarde e ficava ali durante horas no café da livraria. Levava meu livro, sentava para ler, parava. Observava as pessoas entre as prateleiras e tentava adivinhar como haviam chegado até ali.
De fora, talvez eu parecesse apenas uma jovem que gostava de livros e havia encontrado uma maneira silenciosa de ocupar o fim de semana.
Por dentro, eu me sentia uma fraude.
Não porque fingisse gostar de ler. Eu adorava. Adoro até hoje. O que me perturbava era a sensação de não conseguir absorver aquelas histórias da mesma maneira que as outras pessoas pareciam absorver.
Eu olhava ao redor e inventava para cada uma delas um passado que não conhecia. Imaginava casas cheias de livros, pais que falavam de cinema à mesa, viagens, escolas melhores, referências compartilhadas desde a infância. Acreditava que aquelas pessoas haviam chegado ali por caminhos mais legítimos do que o meu.
Eu não invejava apenas o repertório delas.
Invejava a naturalidade com que aquelerepertório parecia caber nelas.
Essa sensação me acompanhou por anos.
Estava comigo durante a adolescência, enquanto eu estudava inglês com uma dedicação que me rendia as melhores notas da escola, semestre após semestre, mesmo quando o nível ficava mais difícil.
Estava comigo quando, aos dezesseis anos, comecei a dar aulas na mesma escola em que estudava e corrigia lições nos intervalos entre as aulas do colégio.
Também estava nos finais de semana em que eu ia sozinha à Avenida Paulista, assistia a filmes alternativos, entrava em teatros e livrarias e tentava construir, por escolha, aquilo que outras pessoas haviam recebido pela convivência.
Eu ainda não sabia chamar aquilo de repertório.
Sabia apenas que queria conhecer aquele mundo. Queria compreender suas referências, participar de suas conversas e reconhecer os nomes que pareciam familiares para todo mundo, menos para mim.
Durante muito tempo, interpretei esse esforço como uma prova de que eu não pertencia.
Hoje entendo o contrário.
Eu não estava fingindo ser alguém.Estava construindo alguém.
O repertório herdado costuma parecer natural porque o processo de aprendizagem desaparece dentro da vida cotidiana. Ninguém se lembra de quando aprendeu os nomes que sempre ouviu em casa, os filmes que assistiu com a família ou a maneira de conversar que observou desde criança.
Já o repertório construído deixa suas costuras aparentes para quem precisou construí-lo. Você se lembra de cada palavra que não conhecia, de cada lugar em que entrou sozinha, de cada ocasião em que percebeu que todos pareciam saber alguma coisa que ninguém havia lhe ensinado.
Talvez por isso o seu próprio repertório possa parecer uma imitação, enquanto o dos outros parece parte de quem eles são.
Quando fui aprovada no programa de trainee da C&A, o processo, segundo os números apresentados à turma, havia começado com mais de quinze mil inscritos para vinte e cinco vagas.
Era uma conquista concreta. Ainda assim, uma parte de mim acreditava que havia chegado por um caminho menos legítimo.
Eu costumava dizer que tinha entrado pela porta lateral.
Não era verdade. Eu havia encontrado a porta sozinha.

Nos primeiros dias do programa, entre apresentações de diretores, treinamentos de ferramentas comerciais e dinâmicas de desenvolvimento, o RH exibiu dois trechos de Gênio Indomável.
Na primeira cena, o terapeuta Sean Maguire conversa com Will Hunting num banco de parque. Will é brilhante e conhece o mundo pelos livros. Sean o confronta com uma diferença que a inteligência não consegue eliminar: saber sobre uma experiência não é o mesmo que vivê-la.
É possível conhecer todos os fatos sobre uma obra de arte sem nunca ter olhado para ela. Ler sobre a guerra sem ter sentido o medo de quem estava lá. Conhecer o passado documentado de uma pessoa e ainda assim não saber nada sobre a vida que ela carrega.
Naquele dia, eu não compreendi por que a cena me atingiu.
Vinte anos depois, consigo nomear.
Ninguém que olhasse para mim naquela sala conseguiria saber o que havia acontecido antes de eu chegar ali.
Não saberia dos domingos na livraria. Do inglês estudado com obstinação. Das aulas que comecei a dar aos dezesseis anos. Dos filmes, dos teatros, das escolhas e do trabalho silencioso de construir uma familiaridade que outras pessoas haviam recebido antes mesmo de saber que aquilo tinha valor.
Uma origem é um fato.
Mas um fato isolado não é capaz de contar uma vida inteira.
A falta de repertório herdado também era um fato. Ela explicava parte do caminho, mas não definia minha capacidade. Não revelava o que eu faria com aquilo que me faltava, nem a distância que eu seria capaz de percorrer para aprender.
A segunda cena acontecia no consultório.
Sean conhecia o histórico de violência sofrida por Will. Diante dele, começou a repetir uma frase simples.
It’s not your fault.
Não é sua culpa.
Will resistia. Tentava encerrar a conversa com ironia. Sean repetia. Continuava repetindo até que a frase atravessava a defesa e alcançava um lugar que Will havia passado a vida inteira protegendo.
O filme falava de violência e abuso. Falava de uma dor muito mais concreta e brutal do que a minha. Meu choro não exigia que as duas histórias fossem equivalentes.
Mas, quando as cenas terminaram, eu estava soluçando.
Levantei, fui ao banheiro e chorei de um jeito que não conseguia explicar.
Não consegui explicar por vinte anos.
Hoje penso que as duas cenas se encontraram dentro de mim, embora falassem de experiências diferentes.
A primeira dizia que ninguém pode conhecer uma pessoa apenas pelos fatos que vê de fora.
A segunda tocava numa culpa que eu ainda não sabia que carregava: a culpa por não ter recebido determinados repertórios, por precisar aprender tarde o que parecia natural para os outros e por acreditar que o esforço visível da minha aprendizagem tornava o resultado menos verdadeiro.
Em 1978, as psicólogas Pauline Rose Clance e Suzanne Imes descreveram o fenômeno do impostor a partir da experiência de mulheres com realizações acadêmicas e profissionais comprovadas que, apesar das evidências, continuavam acreditando que não eram realmente capazes e que haviam enganado as pessoas ao redor.
Eu conhecia bem essa contradição.
Podia ter a melhor nota e achar que aquilo não provava nada. Podia ensinar inglês e continuar acreditando que não sabia o suficiente. Podia conquistar uma das vinte e cinco vagas de um processo com milhares de pessoas e imaginar que, em algum momento, alguém descobriria que eu não deveria estar ali.
As conquistas não silenciavam a voz porque o problema nunca havia sido falta de evidência.
Era o critério que eu usavapara decidir o que era legítimo.
Eu comparava os bastidores do meu esforço com a naturalidade que os outros exibiam na superfície. Via todas as costuras daquilo que havia aprendido e nenhuma das costuras do aprendizado deles.
A voz que me chamava de fraude não surgiu do nada. Ela nasceu dessa distância e das interpretações que fiz enquanto tentava atravessá-la.
Ela tinha uma história.
Não tinha a verdade.
O que eu diria hoje para a trainee que se levantou daquela sala e foi chorar no banheiro não seria um conselho, uma estratégia ou um método de desenvolvimento pessoal.
Eu diria apenas:
Você édo caralho.
Não porque venceu milhares de pessoas num processo seletivo. Não porque aprendeu inglês, começou a trabalhar cedo ou passou domingos construindo o repertório que sentia não possuir.
Você é do caralho porque fez tudo isso sem saber exatamente aonde chegaria. Porque reconheceu a ausência e, em vez de aceitá-la como destino, começou a preenchê-la.
A menina sentada na Livraria Cultura não estava interpretando uma personagem.
Estava aprendendo.
Estava chegando.
O repertório que você construiu não é uma versão inferior do repertório que outras pessoas herdaram. Não é menos autêntico porque exigiu intenção. Não é menos seu porque você se lembra de como o adquiriu.
Você não estava fingindo pertencer.
Estava encontrando o seu próprio caminho para entrar.
It’s not your fault.Nunca foi.
Referências
- Pauline Rose Clance e Suzanne Imes, The Impostor Phenomenon in High Achieving Women: Dynamics and Therapeutic Intervention, Psychotherapy: Theory, Research & Practice, 1978.
- Good Will Hunting, dirigido por Gus Van Sant, Miramax, 1997. A página oficial reúne informações sobre o filme e o trecho “It’s Not Your Fault”.