Antes de mim, houve uma mulher chamada Roza.

Ela era a mais velha de onze irmãos, filha de imigrantes italianos que chegaram ao Brasil fugindo da guerra e foram trabalhar nas lavouras de café e cana-de-açúcar do interior de São Paulo.

Sobre ela recaiu uma responsabilidade comum às filhas mais velhas de famílias pobres e numerosas: ficar. Enquanto os irmãos iam à escola, Roza permanecia com minha bisavó na lavoura.

Não aprendeu a ler. Não aprendeu a escrever. Aprendeu a trabalhar, que era o que havia para aprender.

Quando cresceu, passou a lavar roupa para fora e ajudar nas contas da família. Viveu numa casa de pau a pique, ao lado de um marido abusivo e com uma doença silenciosa no corpo. A doença de Chagas, provavelmente contraída nas condições precárias da vida rural, acompanhou-a por muitos anos.

Roza sabia cozinhar.

Tinha uma panela velha na qual fazia uma carne de panela cujo sabor ainda consigo sentir, décadas depois. Era o tipo de comida que se aprende fazendo durante anos, no mesmo fogão, com as mãos que conhecem o ponto antes de a cabeça precisar pensar.

Ela não tinha muito. Mas aquilo que tinha, transformava.

Foi assim, sem saber, que me ensinou que o corpo guarda o que a vida não documenta.

Anos depois da morte de Roza, voltei à casa onde ela viveu para fotografar o que ainda permanecia. Chamei aquele ensaio de Raízes. Ela já não estava ali, mas sua presença continuava inscrita nos objetos, nos cômodos e nos gestos de quem havia ficado.

Panela de pressão no fogão e uma figura parcialmente visível ao fundo, na cozinha da casa de Roza.
A cozinha da casa de Roza. Ensaio Raízes, fotografia de Cami Bertoluci

Do lado paterno, o vô Gildo dirigia trator numa fazenda no interior de São Paulo. Também era filho de imigrantes e também dependia do trabalho numa terra que não lhe pertencia.

Eram histórias paralelas, repetidas em tantas famílias brasileiras. Pessoas que chegaram com pouco e passaram décadas transformando trabalho em pequenos avanços, uma geração depois da outra, em direção a algo que ainda não sabiam nomear.

Meus pais se conheceram no Banco Bradesco, na Cidade de Deus, em Osasco. Ambos trabalhavam lá.

Para meu pai, aquele seria o emprego de uma vida inteira. Foram quarenta e cinco anos, até a aposentadoria. Depois que minha irmã nasceu, ele decidiu cursar o ensino superior à noite. Trabalhava durante o dia e estudava quando voltava para casa, com a disciplina silenciosa de quem sabia que cada hora e cada centavo importavam.

Minha mãe não foi para a faculdade. Quando se casou, deixou o trabalho para cuidar da casa e das filhas.

Aos meus olhos, a vida doméstica foi apagando partes dela que não encontravam espaço naquela escolha. Cresci percebendo uma inquietação silenciosa, como se os sonhos que ela havia guardado continuassem procurando uma saída.

Foi observando isso que compreendi, muito antes de saber explicar, que o casamento não seria um objetivo de vida para mim. Eu queria construir uma existência que não exigisse o abandono de quem eu era.

Acho que herdei os sonhos dela.

E talvez tenha herdado também os de Roza, inclusive aqueles que ela não chegou a reconhecer como sonhos porque não havia espaço para tê-los.

Retratos de diferentes gerações da família reunidos sobre um móvel na casa de Roza.
Retratos de família na casa de Roza. Ensaio Raízes, fotografia de Cami Bertoluci.

Nasci no ambulatório da Cidade de Deus, em Osasco, num dia 12 de junho.

A Osasco dos anos 1980 era periférica, barulhenta e marcada pela violência. Não era uma cidade que não parava de uma forma poética. Era uma cidade que não parava porque a vida exigia movimento.

Foi ali que meus pais construíram, com as próprias mãos e a ajuda do vô Gildo, o sobrado geminado e estreito onde cresci. A construção acontecia principalmente aos sábados, conforme o tempo e o dinheiro permitiam.

A casa tinha dois quartos, um banheiro, sala, cozinha e um quintal fino como um corredor.

Nos sábados de verão, meu pai amarrava a mangueira no varal para que eu e minha irmã pudéssemos nos refrescar. Na cozinha, minha mãe preparava o almoço ouvindo Elvis Presley, seu cantor favorito. Música alta e sonhos guardados compunham uma cena que só fui compreender muitos anos depois.

Meu pai ia e voltava do trabalho de fretado. Durante um período, voltava para almoçar em casa porque assim economizava e ainda conseguia nos ver no meio do dia. Quando a matriz mudou para Alphaville, passou a comer no refeitório.

Nunca almoçava no restaurante com os colegas. Não se permitia esse gasto porque havia uma matemática silenciosa governando cada decisão da nossa casa.

Demorei para entender que aquela contenção não era falta de ambição. Era uma forma específica e disciplinada de amor. O amor de quem conhece o preço das coisas e sabe o que pode acontecer quando a conta não fecha.

Os carros que tivemos já carregavam mais de dez anos de uso. Fusca, Belina, Voyage. Um depois do outro. Ter dois carros usados era mais sensato do que ter um novo, e a necessidade da família era ter dois.

Cada centavo importava.Sempre importou.

Minha vida escolar começou numa escola-berçário de um bairro periférico de Osasco e ganhou forma dentro da Fundação Bradesco. Estudei lá do pré ao terceiro colegial.

Aprendi datilografia e secretariado porque o sonho dos meus pais era que eu me tornasse uma secretária bilíngue. Era um sonho honesto e generoso, o melhor futuro que conseguiam imaginar para mim naquele momento.

Carreguei esse projeto durante anos, como se carregam os sonhos que recebemos antes de descobrirmos que também podemos construir os nossos.

Tivemos uma infância saudável no aspecto que mais importava: a liberdade de brincar.

Nossa rua era residencial e tranquila. Quando tivemos idade suficiente, passamos a brincar fora de casa. Queimada, pega-pega, esconde-esconde, subir em árvore, pular muros.

Eu não tinha medo de subir até onde os outros paravam.

Quando penso nisso hoje, não consigo separar completamente aquela menina da mulher que me tornei. Já existia em mim o impulso de descobrir o que havia do outro lado. Não veio de alguém que apontou um caminho. Não nasceu de um lugar que me mostrou todas as possibilidades.

Era um chamado interno, presente antes que eu tivesse palavras para nomeá-lo.

Varal de chão preso à parede do quintal da casa de Roza, com a escada e um cachorro ao fundo.
O quintal da casa de Roza. Ensaio Raízes, fotografia de Cami Bertoluci.

Minha avó Roza morava na rua de trás. Em frente à casa dela havia um pé de dama-da-noite.

Eu já carregava a memória de Roza no paladar. Havia, porém, outro arquivo dela guardado em mim: o cheiro.

Não sei dizer quantas vezes passei correndo por aquela planta. Quando somos crianças, não contamos as vezes. Vivemos cada uma como se fosse a única.

O que ficou foi aquele cheiro denso e adocicado que surgia depois que o sol ia embora. Ele se misturava ao ar morno das noites de verão de Osasco e entrava pela memória por um caminho que não passava pela cabeça.

Cheiro de esconde-esconde. De quintal alheio. De infância inteira.

Raramente viajávamos nas férias. Quando era possível, o destino costumava ser um hotel fazenda em Serra Negra com pensão completa, para que nenhum gasto além do previsto fosse necessário.

Ficávamos cinco dias, no máximo. Muitas vezes, nem isso.

E não era bom, mas era o que dava.

Não porque faltasse desejo de mais, mas porque esse desejo ainda não sabia exatamente o que queria. Era apenas um impulso sem endereço. A vontade de uma menina que subia em árvores e pulava muros sem saber o que encontraria depois deles.

Mas havia algo do outro lado.Eu não sabia o quê.Só sabia que queria chegar lá.