O vilão de KPop Demon Hunters não controla os personagens pela força. Ele os controla pela vergonha.

Dora demorou a se interessar pelo filme. Quando o frenesi começou e parecia que todas as crianças já sabiam as músicas, ela ainda não demonstrava muita curiosidade. A onda passou pelo mundo, mas, dentro da nossa casa, começou apenas agora.

Há alguns dias, sentei para assistir com ela. Esperava encontrar um filme infantil divertido, com música, aventura e personagens fortes o suficiente para prender sua atenção. Encontrei tudo isso. Mas encontrei também uma história cheia de simbolismos que me remeteu imediatamente ao Segunda Porta e àquilo que venho tentando compreender e escrever neste espaço.

Cami e Dora deitadas lado a lado sob uma manta, à noite, sorrindo para a câmera.
Dora e eu, depois de assistirmos juntas a KPop Demon Hunters. Setembro de 2026.

No filme, Gwi-Ma se alimenta da insegurança, da culpa e da vergonha. Ele conhece aquilo que seus personagens desejam esconder e usa esse conhecimento para mantê-los sob controle. Não precisa convencê-los de que são inteiramente ruins. Basta fazê-los acreditar que existe dentro deles alguma coisa ruim o suficiente para anular todo o restante.

É assim que ele os hipnotiza.

A vergonha tem essa capacidade. Ela estreita o campo de visão até que uma falha, uma fraqueza ou uma parte rejeitada de nós mesmas pareça representar tudo o que somos. O que fazemos bem perde importância. Nossas qualidades começam a parecer circunstanciais. Aquilo que nos diminui, ao contrário, ganha a aparência de verdade.

Talvez por isso seja tão fácil acreditar na voz que nos acusa e tão difícil confiar naquela que nos reconhece.

Fora da ficção, não existe um único Gwi-Ma comandando o mundo. Existem ambientes, instituições e relações que aprenderam a exercer poder fazendo as pessoas duvidarem do próprio valor. Existem famílias que confundem amor com correção permanente. Empresas que chamam humilhação de exigência. Grupos que mantêm suas fronteiras não apenas impedindo a entrada de quem vem de fora, mas fazendo quem conseguiu entrar acreditar que deveria sentir gratidão por permanecer.

Aos poucos, essa vigilância deixa de precisar de alguém do lado de fora.

Nós mesmas começamos a fazer o trabalho.

Repassamos mentalmente o que dissemos. Reduzimos uma ideia antes que alguém possa considerá-la ambiciosa demais. Observamos como as outras pessoas se vestem, falam e se comportam para evitar que algo em nós revele que não nascemos naquele lugar. Tentamos não demonstrar surpresa demais, vontade demais, insegurança demais, origem demais.

Quando a vergonha é internalizada, já não é preciso que alguém nos mantenha pequenas. Passamos a nos corrigir antes mesmo que o mundo tenha a oportunidade de fazê-lo.

Rumi vive exatamente esse conflito. Ela carrega no corpo as marcas de uma origem que aprendeu a considerar incompatível com a pessoa que deveria ser. É uma caçadora de demônios, mas também é filha de um deles. Para ser aceita, acredita que precisa esconder metade de si.

Não se trata apenas de guardar um segredo. Ela organiza a própria vida em torno da possibilidade de que esse segredo seja descoberto.

As marcas precisam permanecer cobertas. A voz precisa continuar perfeita. O desempenho precisa compensar aquilo que ela considera uma falha de origem. Quanto maior o medo de ser revelada, mais energia ela gasta sustentando uma versão de si que acredita ser aceitável.

Reconheci esse movimento.

Durante muito tempo, pensei que pertencer dependia de aprender a esconder os sinais que pudessem revelar de onde eu vinha. Não sentia vergonha da minha família nem da minha história. Mas havia compreendido, sem que ninguém precisasse explicar, que o mundo fazia perguntas diferentes para quem não havia nascido dentro dele.

Quem já pertence pode errar e continuar sendo percebido como interessante, espontâneo ou excêntrico. Quem está chegando sente que um único erro pode confirmar tudo aquilo que teme que pensem a seu respeito.

Por isso, aprender os códigos nunca parece suficiente. É preciso demonstrar que os dominamos o tempo inteiro.

Passei anos tentando neutralizar a menina de Osasco em determinados ambientes. A filha de funcionários de banco, criada em um sobrado geminado e estreito, não desapareceu. Mas aprendeu a não aparecer demais. Eu acreditava que aquela contenção era maturidade, quando muitas vezes era apenas vigilância.

O problema não estava em ampliar meu repertório. Aprender a circular por novos ambientes foi importante e continua sendo. O problema estava em acreditar que, para adquirir novos códigos, eu precisava apagar os anteriores.

Há pesquisas que ajudam a compreender o custo desse esforço. Estudos sobre a ocultação de identidades estigmatizadas mostram que o sofrimento não está somente em carregar uma característica que pode ser julgada. Está também no trabalho permanente de escondê-la.

É preciso observar o ambiente, calcular o que pode ser revelado, antecipar reações e impedir que alguém encontre aquilo que tentamos proteger. A ocultação deixa de ser um gesto pontual e se transforma numa ocupação silenciosa da mente.

No filme, esse desgaste alcança justamente a voz de Rumi.

Não por acaso.

A voz é o instrumento de seu poder, mas também é o lugar onde sua divisão se manifesta. Enquanto ela tenta sustentar uma imagem impecável e rejeitar parte de quem é, cantar se torna cada vez mais difícil. A voz, que deveria expressá-la, passa a servir como disfarce.

Rumi não recupera sua força porque descobre que não possui falhas. Também não decide, de uma hora para outra, amar todas as suas marcas. O movimento é mais complexo e, por isso, mais humano.

Ela compreende que não pode continuar tratando uma parte de si como uma doença que precisa ser curada. E, quando já não consegue sustentar sozinha aquilo que esconde, revela a verdade às companheiras.

Esse ponto importa.

A liberdade de Rumi não nasce apenas de uma decisão individual. Ela não vence porque aprende a depender somente de si, ignorar os julgamentos e seguir em frente. Sua transformação acontece também porque a verdade encontra uma relação capaz de sobreviver a ela.

Mira e Zoey não são apenas levadas por sua força. Elas também ajudam Rumi a recuperá-la. Quando já não precisa gastar toda a energia protegendo o segredo, ela pode usá-la para cantar, lutar e construir algo com as outras.

Pertencer talvez seja isso.

Não encontrar um lugar onde ninguém veja nossas marcas, mas encontrar relações nas quais elas não precisem ser escondidas para que continuemos sendo amadas, respeitadas ou reconhecidas.

Isso não significa transformar exposição em obrigação. Ninguém deve revelar partes de si em ambientes que não oferecem segurança. Esconder-se pode ser uma forma necessária de proteção quando a verdade traz riscos concretos. Há situações em que preservar uma parte de nós é sobrevivência, não covardia.

Mas existe uma diferença entre escolher o que mostrar e construir uma vida inteira em torno do medo de ser descoberta.

Também não se trata de romantizar nossas feridas. Algumas marcas carregam injustiças, perdas e silêncios que jamais deveriam ter sido necessários. A origem pode nos oferecer identidade, memória e afeto, mas também pode nos impor limites que precisamos atravessar.

Aceitar quem somos não significa permanecer onde começamos.

Significa não confundir crescimento com apagamento.

Pensei nisso enquanto assistia ao filme ao lado de Dora. Quero que ela conheça desde cedo lugares, referências e possibilidades que não fizeram parte da minha infância. Quero que entre em livrarias, museus, teatros, cidades e conversas sem a sensação de que precisa pedir licença para estar ali. Quero que desenvolva repertório antes de precisar sentir falta dele.

Mas também quero que saiba de onde veio.

Quero que conheça a história da bisavó Roza, que não aprendeu a ler, mas fazia uma carne de panela cujo sabor permaneceu em mim como uma herança. Quero que compreenda o tamanho dos sonhos que cabiam na casa onde cresci e o esforço de tantas pessoas para que eu pudesse imaginar uma vida que elas ainda não sabiam nomear.

Não quero que Dora carregue as mesmas inseguranças que eu carreguei. Mas sei que não posso protegê-la de todas as marcas. Ninguém atravessa a vida sem ser tocado por ela.

O que posso desejar é que não passe anos transformando suas marcas em provas contra si mesma.

Que aprenda a distinguir responsabilidade de culpa, imperfeição de indignidade e crescimento de disfarce. Que tenha coragem de rever escolhas, reconhecer erros e ampliar o próprio mundo sem concluir que precisa se tornar outra pessoa para merecer um lugar nele.

Talvez coragem não seja deixar de sentir medo.Talvez seja deixar de obedecer à vergonha.

Ao final do filme, Rumi não canta com uma voz perfeita porque finalmente eliminou tudo o que havia de conflitante dentro dela. Sua voz ganha força porque já não precisa sustentar uma mentira. As marcas continuam ali, mas deixam de determinar o que ela acredita merecer.

Foi isso que ouvi naquela música.

A voz de alguém que não resolveu todas as suas contradições, mas decidiu não continuar se escondendo dentro delas.

Porque a segunda porta não é apenas entrar em uma sala onde antes não havia lugar para nós. É conseguir permanecer nela sem deixar do lado de fora tudo aquilo que nos trouxe até ali.

E talvez o som da nossa voz só apareça por inteiro quando ela deixa de servir como disfarce.

Referências

  • CAMACHO, G.; REINKA, M. A.; QUINN, D. M. Disclosure and Concealment of Stigmatized Identities. Journal of Social Issues, 2020.
  • NEFF, K. D. Self-Compassion: Theory, Method, Research, and Intervention. Annual Review of Psychology, 2023.
  • KPop Demon Hunters. Direção de Maggie Kang e Chris Appelhans. Netflix, 2025.