Eu havia reservado a exposição imersiva sobre Tarsila do Amaral para o período da tarde. Como chegaríamos mais cedo à Avenida Paulista, decidi almoçar com Dora no Gula Gula, ao lado do Conjunto Nacional.

Não era apenas um almoço antes de uma exposição.

Estávamos diante de um lugar que havia abrigado muitas tardes da minha juventude.

Contei a ela que, quando era mais nova, costumava passar horas na Livraria Cultura. Entrava sem pressa, caminhava entre as estantes, escolhia um livro, sentava para ler, devolvia, procurava outro. Às vezes tomava um café. Em outros dias, assistia a algum filme na região ou simplesmente ficava observando as pessoas que circulavam por ali.

A livraria era enorme, bonita e cheia de possibilidades. Para a jovem que eu era, parecia menos uma loja e mais uma espécie de território estrangeiro ao qual eu tentava aprender a pertencer.

Dora ouviu tudo com atenção.

Quando terminei, ela disse:

"Eu quero ir nessa livraria, mamãe."

Senti uma tristeza pequena e imediata.

"Filha, essa livraria não existe mais. Ela fechou."

Dora começou a chorar.

Não foi um choro breve de frustração infantil. Ela soluçava, verdadeiramente inconformada, repetindo que aquilo não era justo, que queria conhecer o lugar que eu acabara de descrever, que uma livraria tão maravilhosa não poderia simplesmente ter deixado de existir.

Tentei consolá-la.

Ela, porém, já procurava uma solução.

Disse que pediria à mãe do tio Felipe, marido de sua madrinha, que é arquiteta, para desenhar outra livraria. Depois, construiríamos uma nova exatamente naquele lugar.

A solução era impossível, mas a lógica fazia todo sentido.

Se uma livraria importante havia desaparecido, alguém precisava reconstruí-la.

Enquanto Dora chorava por um lugar em que nunca estivera, percebi que eu havia lhe transmitido uma memória com força suficiente para que ela também sentisse a perda.

Ela não chorava apenas por um prédio fechado.

Chorava pela possibilidade de um lugar onde alguém pudesse passar horas entre livros, histórias e pessoas. Pela ideia de que um espaço tão bonito poderia existir e, ainda assim, não estar mais disponível quando ela finalmente quis entrar.

Para ajudá-la, procurei no celular uma fotografia antiga.

Quando Dora tinha três meses, eu e o pai dela viajamos com ela por Portugal e Itália. No Porto, entramos na Livraria Lello. Em uma das fotografias daquela viagem, apareço sentada dentro da livraria, amamentando-a.

Mostrei a imagem.

Contei que, antes mesmo de saber o que era um livro, ela já havia estado dentro de uma livraria muito especial. Que havia lugares dos quais o corpo participa antes que a memória consiga registrá-los.

Ela gostou de se ver tão pequena. Gostou de saber que já tinha atravessado aquele espaço comigo.

Mas continuou inconformada com a Livraria Cultura.

A Livraria Lello não substituía a minha livraria.

Terminamos o almoço e seguimos para a exposição.

Levo Dora a exposições, peças de teatro, livrarias, cinemas e viagens sempre que posso. Faço isso mesmo quando representa um investimento alto para mim, porque não enxergo essas experiências apenas como entretenimento.

Elas são parte do legado que escolhi deixar para ela.

Não me interessa criar uma infância ornamentada por programas culturais, como se ingressos, fotografias e viagens formassem uma coleção capaz de provar alguma coisa sobre nós. O que desejo é mais profundo.

Quero que Dora cresça sabendo que esses lugares também lhe pertencem.

Quero que entre em um museu sem sentir que precisa conhecer previamente todas as obras. Que escute uma música desconhecida e permaneça. Que se sente diante de uma pintura sem procurar imediatamente a resposta correta. Que abra um livro sem pensar que algumas histórias foram escritas para pessoas mais cultas, mais preparadas ou mais legítimas do que ela.

Quero que a curiosidade seja uma linguagem de infância.

Para mim, não foi.

Durante muitos anos, construí meu repertório deliberadamente, quase à força. Passei tardes em livrarias, cinemas e teatros tentando alcançar um mundo que me atraía, mas cuja entrada ninguém havia me mostrado.

Eu não tinha crescido cercada por aquelas referências. Precisava procurá-las uma a uma, sem saber exatamente quais eram importantes ou por onde deveria começar.

Muito do que outras pessoas haviam aprendido pela convivência, eu tentava aprender pela observação.

A Livraria Cultura foi um dos lugares onde fiz isso.

Talvez por essa razão eu a tenha descrito para Dora com tanta emoção. Eu não estava falando somente de uma livraria. Estava falando de um dos espaços onde comecei a construir a pessoa que desejava me tornar.

Na exposição, atravessamos juntas as cores, as formas e as paisagens de Tarsila.

Na terceira sala, havia espelhos e imagens projetadas ao nosso redor. Deitamos no chão e ficamos ali por muitos minutos, olhando para o que se movia acima e ao lado de nós.

Cami e Dora na sala de espelhos da exposição imersiva sobre Tarsila do Amaral.
Eu e Dora na sala de espelhos da exposição imersiva sobre Tarsila do Amaral, em São Paulo. Agosto de 2026.

Dora escutava a música.

"Ela me faz sentir muita paz, mamãe", disse.

Eu a observei deitada naquele chão, permitindo que a obra chegasse até ela sem perguntar quem era Tarsila, a qual movimento pertencia ou qual significado deveria encontrar.

Ela apenas sentia.

Naquele instante, todo o investimento fazia sentido.

Repertório não é somente acumular informações. É desenvolver familiaridade suficiente para permanecer diante do que ainda não conhecemos. É não recuar imediatamente quando uma obra, uma conversa ou um ambiente nos apresenta uma linguagem nova.

O conhecimento começa muitas vezes antes da explicação.

Começa quando alguém descobre que pode ficar.

Continuamos percorrendo a exposição até que me deparei com uma fotografia de Tarsila ao lado de sua filha, Dulce.

Parei diante da imagem.

Eu sabia que pertencíamos a tempos, origens e histórias completamente diferentes. Não havia equivalência entre nossas trajetórias, nem era isso que a fotografia me sugeria.

O que reconheci foi um gesto.

Cami e Dora diante de uma fotografia de Tarsila do Amaral com sua filha, Dulce.
Eu e Dora diante da fotografia de Tarsila do Amaral com sua filha, Dulce. Foi diante dessa imagem que reconheci um gesto atravessando diferentes gerações.

Em épocas distintas, por motivos distintos e com recursos distintos, havia ali mulheres tentando ampliar o mundo disponível para suas filhas.

Mulheres que compreenderam que educar uma menina também pode significar apresentá-la a outras culturas, outras formas de viver, outros modos de pensar e outros caminhos possíveis.

Talvez nenhuma mãe consiga libertar completamente uma filha das barreiras que encontrará.

Algumas serão visíveis. Outras estarão escondidas nos ambientes, nas relações, nas palavras que parecem simples e nos conhecimentos que todos tratam como naturais porque nunca precisaram aprendê-los conscientemente.

Mas podemos oferecer repertório.

Podemos colocar palavras onde antes havia apenas estranhamento. Podemos mostrar que existem outros lugares, outras pessoas e outras maneiras de construir uma vida. Podemos ensinar uma menina a reconhecer uma porta antes que alguém tente convencê-la de que aquela entrada não foi feita para ela.

Eu não quero que Dora viva a minha trajetória corrigida.

Ela terá suas próprias ausências, seus próprios conflitos e fronteiras que ainda não consigo prever. Não existe infância capaz de preparar alguém para tudo.

O que posso fazer é diminuir a quantidade de mundos que lhe parecerão proibidos apenas porque são desconhecidos.

Quero que aquilo que para mim foi descoberta tardia faça parte da linguagem cotidiana dela.

Não para que pareça sofisticada.

Não para que saiba citar artistas, livros ou cidades.

Mas para que, quando chegar a um ambiente novo, não confunda desconhecimento com incapacidade. Para que não olhe ao redor e imagine que todas as outras pessoas nasceram sabendo alguma coisa que só ela não conseguiu aprender.

Para que reconheça que repertório é adquirido.

E que também pode ser transmitido como herança.

Na saída da exposição, continuei pensando na fotografia de Tarsila e Dulce. Pensei em minha mãe, em minha avó Roza, em tudo o que cada geração pôde ou não pôde oferecer à seguinte.

Tenho uma fotografia de 2007 em que essa continuidade parece caber inteira dentro de uma cozinha.

Nela estão minha avó Roza, minha mãe, eu e minha irmã, com Juan, o primeiro bisneto de Roza. Quatro gerações reunidas numa imagem doméstica, sem que nenhuma de nós soubesse ainda tudo o que seria transmitido, interrompido ou transformado entre uma vida e outra.

Quatro gerações da família de Cami reunidas em uma cozinha, em 2007.
Quatro gerações da minha família, em 2007: minha avó Roza, minha mãe, eu e minha irmã, com Juan, primeiro bisneto de Roza.

Minha avó não aprendeu a ler.

Minha mãe guardou sonhos que não conseguiu viver.

Eu passei parte da juventude tentando construir, sozinha, um repertório que não havia recebido.

Agora caminho por exposições de mãos dadas com minha filha.

Não porque nossa história tenha se resolvido, mas porque ela continua.

Talvez seja esse o legado que procuro deixar para Dora.

Não a garantia de que todas as portas permanecerão abertas. Algumas livrarias fecham. Alguns lugares desaparecem antes que possamos apresentá-los a quem amamos.

Mas quero deixar nela a certeza de que o conhecimento, a arte e a curiosidade também lhe pertencem.

Quero que ela entre.

Quero que saiba permanecer.

E quero que, quando alguma porta se fechar, tenha imaginação suficiente para pedir que construam outra.