Antes de viajar para a China, eu fazia a capa da pasta de quem ia.

Dentro dela, organizava as informações de estilo, os painéis com os produtos, os e-mails enviados aos fornecedores solicitando desenvolvimentos e alterações. Imprimia as conversas, reunia informações de matérias-primas e aviamentos de referência. Tudo o que minha gerente de produto precisaria consultar durante a viagem.

Depois, fazia uma capa temática com os lugares que ela visitaria. Queria deixar a pasta mais bonita. Havia um carinho naquele trabalho que ia além de organizar bem as informações. Enquanto preparava tudo, imaginava como seria estar lá.

Entrei na C&A em 2004. Foi ali que começou minha vontade de conhecer a China. Eu queria participar das decisões, construir relações com os fornecedores e entender, de perto, as possibilidades de criar os produtos. Queria conhecer o que existia além dos e-mails, dos painéis e das referências que passavam pelas minhas mãos.

Preparar a viagem me aproximava daquela experiência. Eu participava de uma parte importante do trabalho, mas ainda desejava viver a outra: levar aquelas informações comigo, sentar à mesa e fazer parte das conversas que aconteceriam do outro lado.

Reunião à mesa com fornecedores na China, com materiais de produto e araras de roupas ao fundo.
À mesa com os fornecedores na China, durante minha primeira viagem profissional ao país, em 2015. Acervo pessoal de Cami Bertoluci.

Saí da C&A sem realizar essa viagem. O desejo continuou comigo e a primeira oportunidade veio na Marisa, em 2015, onze anos depois.

Naquele momento, a empresa estava começando a planejar a viagem. Discutia quem iria, o orçamento, as possibilidades. Eu sabia que queria ir. Mais do que isso, sabia que estava pronta.

Chamei minha gestora para um café.

Disse a ela que me sentia preparada para assumir aquela responsabilidade e que, se o orçamento fosse o impedimento, eu me propunha a pagar minha passagem, deixando os demais custos com a empresa.

Hoje, quando lembro dessa conversa, reconheço o tamanho da minha vontade. Eu estava disposta a usar meu próprio dinheiro para viver uma experiência profissional que desejava havia anos.

A empresa não aceitou a proposta nesses termos. Fui com tudo pago, como deveria ser numa viagem de trabalho. Não precisei financiar aquela oportunidade. Mas acredito que a clareza com que me coloquei fez diferença na decisão de me escolher.

Não consigo saber quanto aquela conversa pesou entre todos os critérios envolvidos. Sei que, depois dela, minha gestora conhecia duas coisas que eu não queria deixar implícitas: meu interesse e minha convicção de que tinha capacidade para ir.

Já contei, no A Segunda Porta, sobre as visitas da regional quando eu era trainee de gerente de loja. Eu continuava na área de vendas, cuidando da equipe e da operação, esperando que minha dedicação fosse percebida. Um colega estudava os números e acompanhava a visita, apresentando resultados e oportunidades. Ele tornava visível uma contribuição que eu esperava que alguém descobrisse.

A conversa sobre a China me faz olhar para essa história por outro ângulo. Naquele café, consegui colocar em palavras o que queria fazer a seguir. Minha entrega continuava sendo importante, mas eu já não dependia apenas de alguém interpretar nela a minha ambição.

É possível trabalhar com afinco e, ainda assim, deixar os próprios desejos profissionais desconhecidos.

Quem vê o que fazemos hoje não necessariamente sabequal responsabilidade queremos assumir amanhã.

Naquela primeira viagem, porém, o momento em que compreendi o tamanho da conquista aconteceu antes de chegar à China.

O stopover foi em Paris.

Paris havia sido a primeira cidade europeia que escolhi conhecer, aos vinte e quatro anos. Era meu maior sonho. Realizei aquela viagem com meu trabalho, quando ainda era assistente de produto.

Anos depois, voltei a lugares que havia visitado naquela primeira vez. Estava na mesma cidade, mas a caminho de uma experiência que, naquela época, eu ainda não sabia quando conseguiria viver.

Foi ali que me dei contade onde havia chegado profissionalmente.

Quando conheci Paris pela primeira vez, não conseguia imaginar com clareza até onde minha carreira poderia me levar. Desta vez, eu estava a caminho da China para participar das decisões, construir relações com fornecedores e fazer o trabalho que, durante tanto tempo, havia preparado para outra pessoa.

Havia algo muito particular em reconhecer essa mudança nos lugares que eu já conhecia. Eles me devolviam a lembrança de quem eu tinha sido, enquanto a viagem que continuaria dali me mostrava quem eu estava me tornando.

Senti uma conquista enorme.

Cami Bertoluci pulando diante da livraria Shakespeare and Company, em Paris, com casaco vermelho.
No stopover em Paris, durante minha primeira viagem profissional à China, em 2015. Acervo pessoal de Cami Bertoluci.

Depois daquela primeira ida, voltei à China diversas vezes. Conheci a Muralha, a Cidade Proibida, Hong Kong. Participei de negociações de milhões e ampliei meu conhecimento sobre produtos, fornecedores e possibilidades de desenvolvimento. Cada viagem trouxe experiências que eu não teria conseguido antecipar apenas olhando para os materiais que organizava em 2004.

Hoje, a China faz parte da minha trajetória profissional. Mas ainda me lembro de quando ir até lá era um desejo que eu carregava enquanto preparava uma pasta.

Voltar a essa história me ajuda a reconhecer uma coisa: mostrar disponibilidade também faz parte de construir uma carreira. Dizer que queremos participar, que estamos prontas para uma responsabilidade, que gostaríamos de ser consideradas.

Isso não elimina os limites de orçamento, as escolhas da gestão ou as desigualdades de acesso. Tampouco significa que precisamos oferecer sacrifícios pessoais para provar nossa vontade. A passagem deveria ser paga pela empresa, e foi.

Mas podemos comunicar o que desejamos sem esperar que o medo desapareça ou que alguém adivinhe. Podemos tentar, receber uma resposta, aprender e voltar a nos colocar quando houver outra possibilidade.

Foram onze anos entre começar a preparar aquelas viagens e fazer a minha primeira. Nesse intervalo, trabalhei, aprendi, mudei de empresa e construí condições para assumir aquela responsabilidade. Até que chegou o momento de chamar minha gestora para um café e dizer: eu sei que estou pronta.

Agora, a caminho da China outra vez, penso na jovem que escolhia uma capa bonita para a pasta da gerente.

Ela fazia aquele trabalho com vontade, com cuidado, com carinho. Ainda não sabia quando chegaria a sua vez.

Eu gostaria que ela pudesse me ver agora.